OSSOS DE CADÁVERES INVADIAM AS RUAS DO BAIRRO SAUDADE

por auraandrade13

Em estudo revelador sobre a história do Cemitério da Saudade, historiadora traz à tona as memórias dos moradores do bairro sobre uma das necrópoles mais antigas da cidade

“No início, não tinham grades e muros para separar o espaço do cemitério e as ruas do bairro, então quando chovia, formava uma enxurrada que vinha lá do alto do morro, onde ficavam as tumbas mais altas, e ela vinha arrastando a terra e as ossadas dos cadáveres. Teve um dia que eu saí pra rua depois de uma chuva forte e tinha um crânio no meu portão. A gente morria de medo! (risos)” A descrição é de uma moradora do bairro Saudade. Residente no bairro desde a década de 40, Beatriz Tibre conta as mais diversas histórias a respeito do cemitério da Saudade, a segunda necrópole construída na cidade de Belo Horizonte. As histórias da moradora e de tantos outros que residem e residiram na região durante os anos iniciais do cemitério da Saudade são apenas algumas das narrativas que irão compor a pesquisa Saudades e memórias: espaços de morte e vida no cemitério da Saudade, desenvolvida pela historiadora Sophia Torres com o apoio da FAPEMIG (Fundação de Amparo à Pesquisa de Minas Gerais).

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“A pesquisa tem o intuito de recolher notícias oficiais e histórias oralizadas pelos moradores da região a respeito do Cemitério da Saudade, espaço de grande importância para a memória da cidade, que esteve durante muitos anos distante dos episódios da historiografia oficial da capital”, explica a pesquisadora. Em vigor desde outubro do ano passado, a pesquisa está atualmente em sua segunda fase, na qual Sophia escuta as memórias dos moradores do bairro a respeito do cemitério. Posterior à fase inicial, na qual a historiadora recorreu a documentos do arquivo público sobre a construção da necrópole do Saudade, a segunda fase consiste em uma coleta de memórias dos moradores da região a respeito do cemitério. “São inúmeras as histórias que correm na boca das pessoas a respeito do cemitério, um morador, por exemplo, me contou que, após sucessivas enxurradas de ossos que tomavam as ruas do Saudade, a prefeitura resolveu investir em grades para isolar o cemitério das ruas, mas a iniciativa também não teve sucesso, pois as ossadas ficavam presas nas grades”, observa Sophia. O morador, que não quis se identificar, informou também que, alguns anos depois a prefeitura retirou as grades do cemitério, colocou-as no Parque Municipal e construiu um muro para isolar o terreno do cemitério. “Só que no terreno do cemitério morava uma mulher e quando o muro foi construído, a casa dela ficou pra dentro. Ela ficou morando dentro do cemitério durante alguns anos, até criou as filhas dela lá, depois a prefeitura retirou a casa dela de lá de dentro”, afirma o morador.

“São inúmeras as histórias que correm na boca das pessoas a respeito do cemitério, um morador, por exemplo, me contou que, após sucessivas enxurradas de ossos que tomavam as ruas do Saudade, a prefeitura resolveu investir em grades para isolar o cemitério das ruas, mas a iniciativa também não teve sucesso, pois as ossadas ficavam presas nas grades”,

A pesquisa, que deve seguir até setembro desse ano, pretende ainda catalogar todas as notícias e memórias recolhidas e disponibilizá-las no arquivo público da cidade. A pesquisadora estuda também a hipótese de publicar um livro com as histórias coletadas no bairro.

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