CEMITÉRIO DA SAUDADE DIVIDE A CIDADE DE ACORDO COM LÓGICA DA MORTE

por auraandrade13

Pesquisa sobre o Cemitério da Saudade revela histórias impressionantes sobre a segunda necrópole mais antiga da cidade de Belo Horizonte

A pesquisa Saudades e memórias: espaços de morte e vida no cemitério da Saudade, desenvolvida pela historiadora Sophia Torres com o apoio da FAPEMIG (Fundação de Amparo à Pesquisa de Minas Gerais) tem revelado histórias surpreendentes sobre um dos cemitérios mais antigos da história de Belo Horizonte. Iniciada em outubro do ano passado, a pesquisa tem como foco levantar histórias oficiais e não oficiais a respeito da necrópole que se situa no bairro com o intuito de dar visibilidade à memoria da região. “Inaugurado em 1942 pelo então prefeito Juscelino Kubitschek, o cemitério ou “campo santo”, como era chamado na época, foi construído no intuito de ampliar os espaços para os mortos da cidade, que já não cabiam no Cemitério do Bonfim, primeira necrópole da capital”, comenta a historiadora.Segundo a pesquisadora, o cemitério da saudade foi projetado para ser um cemitério parque, propondo uma mudança radical em relação ao Bonfim, já que contava com arborização especial, flores e os seus túmulos tinham mais o aspecto de monumentos. “Com essa transformação, tira-se do cemitério da Saudade a ideia de fim, dando-lhe a aparência festiva dos parques, como nos Estados Unidos”, conclui Sophia.

“Inaugurado em 1942 pelo então prefeito Juscelino Kubitschek, o cemitério ou “campo santo”, como era chamado na época, foi construído no intuito de ampliar os espaços para os mortos da cidade, que já não cabiam no Cemitério do Bonfim, primeira necrópole da capital”

Uma outra curiosidade é que para enterrar os corpos, o prefeito determinou na época que a cidade fosse dividida em duas zonas, cada uma delas pertencendo a cada um dos cemitérios, o do Bonfim e o da Saudade. Assim aqueles que falecessem de um lado da linha seriam enterrados no Bonfim e os que falecessem do outro lado da linha teriam seu túmulo no cemitério da Saudade, com exceção das famílias que tinham o túmulo perpetuado no Bonfim, que deveriam ser enterradas nestes túmulos, independente da zona em que falecessem.

Imagem do pôr do sol no Cemitério da Saudade, segunda necrópole de Belo Horizonte

Para Sophia, Juscelino separaria os espaços da vida sob uma perspectiva da morte. “O interessante desse capítulo da história de Belo Horizonte é que o mapa da cidade é dividido a partir da lógica da morte, o que aproxima esse episódio a uma história de caráter quase fantástico, romanesco. Uma outra conclusão que podemos chegar está relacionada ao modo simples como a cidade se organizava, já que ainda tinha uma extensão bem menor da que tem hoje. Isto é, o número de mortos havia excedido a capacidade do Bonfim, então surge a ideia de se construir uma nova necrópole, só que a construção de um novo cemitério exige uma lógica, uma organização que determine em qual cemitério as pessoas deveriam ser enterradas. Para esse problema, nada mais nada menos do que a simples resolução a qual Juscelino havia chegado: traçamos uma linha dividindo a cidade, quem morrer de um lado deve ser enterrado no Bonfim, e quem morrer do outro vai para o Saudade.”

A pesquisa revela ainda que o cemitério da Saudade foi inaugurado com a morte de Domingas Antônia, mulher paupérrima que falece sem assistência médica, mas que é homenageada pelas autoridades, que batizam a alameda central da necrópole com seu nome. “Domingas Antônia é o nome dado à alameda central do cemitério em 1942.

Isto é, o número de mortos havia excedido a capacidade do Bonfim, então surge a ideia de se construir uma nova necrópole, só que a construção de um novo cemitério exige uma lógica, uma organização que determine em qual cemitério as pessoas deveriam ser enterradas.

Ironicamente, Domingas, mulher negra e pobre, residente na Vila Brasilina, morre aos 48 anos de idade desassistida pelas autoridades da cidade, pois lhe são negados cuidados médicos. Porém assim que as autoridades têm ciência do fato, dirigirem-se à casa da falecida e tomam todas as providências necessárias para o seu enterro”, afirma a pesquisadora. Essas e outras histórias devem compor a pesquisa de Sophia, que além de buscar informações nos órgãos públicos oficiais, pretende também fazer uma coletânea com as memórias e histórias contadas pelos moradores mais antigos do bairro Saudade a respeito do cemitério.

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