O Diário da Saudade

MULHERES COM ROSTO TAMPADO POR VÉUS RODEIAM O CEMITÉRIO DA SAUDADE E CAUSAM PÂNICO NOS MORADORES

Corpo desaparecido no bairro antes do velório é motivo de peregrinação

Na tarde de 1o de abril, quatro mulheres com trajes de luto iniciaram uma peregrinação no bairro da Saudade à procura de notícias do corpo desaparecido de Zenóbio de Andrade Reis Boaventura. O corpo desapareceu nos arredores do cemitério da Saudade em 5 de março quando era transportado no carro da funerária Descanso Eterno. As mulheres, que não quiseram dar entrevista, estavam vestidas com rendas negras e roxas e com os rostos tampados, o que causou pânico nos moradores do bairro. “Isso é macumba, só poder ser!”, afirma G.A, de 17 anos. bairro. S.G, 20, que reside no bairro desde que nasceu acrescenta: “Já vi uma moça de branco e usando véu  andando no entorno do cemitério do Bonfim. Também não entendi. E pra mim deve ser um ritual ligado ao espiritismo”. Segundo outros moradores, as mulheres estão com o rosto tampado, pois estão pagando uma promessa. “Conversei com elas, e elas me disseram que estão pagando uma promessa e que só vão deixar de tampar o rosto e se vestir daquela maneira quando encontrarem o corpo do falecido Zenóbio, na verdade elas são da família do falecido” afirma G.D, 38 anos.

“Isso é macumba, só poder ser!”, afirma G.A, de 17 anos. bairro. S.G, 20, que reside no bairro desde que nasceu acrescenta: “Já vi uma moça de branco e usando véu  andando no entorno do cemitério do Bonfim. Também não entendi. E pra mim deve ser um ritual ligado ao espiritismo”

 

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CORPO SOME EM CARRO DE FUNERÁRIA AO SER TRANSPORTADO PARA O CEMITÉRIO DA SAUDADE

Corpo de homem desaparece em carro de funerária no bairro Saudade

O corpo de Zenóbio Andrade Reis Boaventura, 55, desapareceu na tarde de 5 de março de 2014, quando era transportado para o cemitério da Saudade no carro da funerária Descanso Eterno. Segundo o motorista, que não quis se identificar, o corpo estava sendo levado ao cemitério no Opala preto da funerária quando desapareceu de dentro do caixão. “Estava dirigindo o carro da funerária, onde levava o caixão com o cadáver, quando parei em uma padaria do bairro para comprar cigarros. Entrei no carro novamente e, quando fui carregar o caixão para levar pro velório percebi que ele estava muito mais leve. Nesse momento, abri o caixão e vi que o corpo não estava mais lá.” A família, que aguardava a chegada do corpo no velório do Cemitério da Saudade está desesperada e já inicia um processo de busca no bairro com a finalidade de encontrar informações a respeito do paradeiro de Zenóbio. “Não nos conformaremos com essa situação! Como um cadáver pode desaparecer assim, de uma hora pra outra dentro do carro de uma funerária?“, afirma Bárbara de Andrade Reis, 50, mulher do falecido. Bárbara afirma também que, juntamente com a irmã, a mãe e a filha, pretende fazer frequentes visitas ao bairro Saudade na busca pelo corpo desaparecido.

“Estava dirigindo o carro da funerária, onde levava o caixão com o cadáver, quando parei em uma padaria do bairro para comprar cigarros. Entrei no carro novamente e, quando fui carregar o caixão para levar pro velório percebi que ele estava muito mais leve. Nesse momento, abri o caixão e vi que o corpo não estava mais lá.”

 

CARTAS SOBRE O TEMA DA SAUDADE INVADEM AS RESIDÊNCIAS DO BAIRRO DA SAUDADE, EM BELO HORIZONTE

Moradores do bairro belo-horizontino são surpreendidos com correspondências que devem ser entregues na rua Juramento, na própria região

Em meados do meses de março e maio, as residências do bairro da Saudade, em Belo Horizonte, foram invadidas por correspondências um pouco diferentes das costumeiramente recebidas pelos moradores. As cartas, escritas à mão, sem remetente claro e apenas com destinatário, tratavam de um tema bem próximo dos moradores de um bairro que cresceu contagiado pela presença da morte, o tema da saudade. Desenvolvido a partir da criação da segunda necrópole mais antiga da cidade, o cemitério da Saudade, o bairro de mesmo nome abriga em sua paisagem inúmeras imagens de morte, que vão desde aquelas que formam o cemitério até as provenientes dos inúmeros velórios e cortejos fúnebres que acontecem no local diariamente, imagens estas relacionadas de modo direto ou não à temática da saudade. Indagada a respeito do nome do bairro, a moradora Maria dos Anjos, 51, residente na região desde 1994 afirma : “Muitos moradores daqui enterraram seus mortos no cemitério, então para nós, vivemos literalmente no bairro das Saudades”.

Uma média de 80 residências do bairro receberam a carta que conta com duas versões, uma repleta de lacunas que dividem as partes do texto, e outra com o texto da primeira versão acrescido de trechos que complementam os espaços em branco da primeira versão. Em ambas, a remetente aborda de modo poético os motivos de suas saudades e conclama os moradores do bairro a dividir com ela “suas imagens desbotadas pelo tempo.”

Aproveitando-se do potencial poético da palavra que dá nome ao bairro e da história da região, várias cartas foram distribuídas nas residências do Saudade por uma remetente que se auto define como “Colecionadora de Saudades.” Uma média de 80 residências do bairro receberam a carta que conta com duas versões, uma repleta de lacunas que dividem as partes do texto, e outra com o texto da primeira versão acrescido de trechos que complementam os espaços em branco da primeira versão. Em ambas, a remetente aborda de modo poético os motivos de suas saudades e conclama os moradores do bairro a dividir com ela “suas imagens desbotadas pelo tempo.” Na carta, a autora afirma que colecionar saudade é o único motivo que tem dado sentido a sua vida nos últimos anos e finaliza seu texto com um pedido direcionado aos moradores do bairro: “Se você ou alguém de sua família tem em mãos esse apelo, por favor me escreva, compartilhe comigo suas ausências. Sua resposta a apenas uma pergunta me é suficiente: e você, do que você sente saudades?” Segundo indicação presente na carta, as respostas devem ser entregues na Rua Juramento, no 32, no próprio Bairro da Saudade.

OSSOS DE CADÁVERES INVADIAM AS RUAS DO BAIRRO SAUDADE

Em estudo revelador sobre a história do Cemitério da Saudade, historiadora traz à tona as memórias dos moradores do bairro sobre uma das necrópoles mais antigas da cidade

“No início, não tinham grades e muros para separar o espaço do cemitério e as ruas do bairro, então quando chovia, formava uma enxurrada que vinha lá do alto do morro, onde ficavam as tumbas mais altas, e ela vinha arrastando a terra e as ossadas dos cadáveres. Teve um dia que eu saí pra rua depois de uma chuva forte e tinha um crânio no meu portão. A gente morria de medo! (risos)” A descrição é de uma moradora do bairro Saudade. Residente no bairro desde a década de 40, Beatriz Tibre conta as mais diversas histórias a respeito do cemitério da Saudade, a segunda necrópole construída na cidade de Belo Horizonte. As histórias da moradora e de tantos outros que residem e residiram na região durante os anos iniciais do cemitério da Saudade são apenas algumas das narrativas que irão compor a pesquisa Saudades e memórias: espaços de morte e vida no cemitério da Saudade, desenvolvida pela historiadora Sophia Torres com o apoio da FAPEMIG (Fundação de Amparo à Pesquisa de Minas Gerais).

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“A pesquisa tem o intuito de recolher notícias oficiais e histórias oralizadas pelos moradores da região a respeito do Cemitério da Saudade, espaço de grande importância para a memória da cidade, que esteve durante muitos anos distante dos episódios da historiografia oficial da capital”, explica a pesquisadora. Em vigor desde outubro do ano passado, a pesquisa está atualmente em sua segunda fase, na qual Sophia escuta as memórias dos moradores do bairro a respeito do cemitério. Posterior à fase inicial, na qual a historiadora recorreu a documentos do arquivo público sobre a construção da necrópole do Saudade, a segunda fase consiste em uma coleta de memórias dos moradores da região a respeito do cemitério. “São inúmeras as histórias que correm na boca das pessoas a respeito do cemitério, um morador, por exemplo, me contou que, após sucessivas enxurradas de ossos que tomavam as ruas do Saudade, a prefeitura resolveu investir em grades para isolar o cemitério das ruas, mas a iniciativa também não teve sucesso, pois as ossadas ficavam presas nas grades”, observa Sophia. O morador, que não quis se identificar, informou também que, alguns anos depois a prefeitura retirou as grades do cemitério, colocou-as no Parque Municipal e construiu um muro para isolar o terreno do cemitério. “Só que no terreno do cemitério morava uma mulher e quando o muro foi construído, a casa dela ficou pra dentro. Ela ficou morando dentro do cemitério durante alguns anos, até criou as filhas dela lá, depois a prefeitura retirou a casa dela de lá de dentro”, afirma o morador.

“São inúmeras as histórias que correm na boca das pessoas a respeito do cemitério, um morador, por exemplo, me contou que, após sucessivas enxurradas de ossos que tomavam as ruas do Saudade, a prefeitura resolveu investir em grades para isolar o cemitério das ruas, mas a iniciativa também não teve sucesso, pois as ossadas ficavam presas nas grades”,

A pesquisa, que deve seguir até setembro desse ano, pretende ainda catalogar todas as notícias e memórias recolhidas e disponibilizá-las no arquivo público da cidade. A pesquisadora estuda também a hipótese de publicar um livro com as histórias coletadas no bairro.

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CEMITÉRIO DA SAUDADE DIVIDE A CIDADE DE ACORDO COM LÓGICA DA MORTE

Pesquisa sobre o Cemitério da Saudade revela histórias impressionantes sobre a segunda necrópole mais antiga da cidade de Belo Horizonte

A pesquisa Saudades e memórias: espaços de morte e vida no cemitério da Saudade, desenvolvida pela historiadora Sophia Torres com o apoio da FAPEMIG (Fundação de Amparo à Pesquisa de Minas Gerais) tem revelado histórias surpreendentes sobre um dos cemitérios mais antigos da história de Belo Horizonte. Iniciada em outubro do ano passado, a pesquisa tem como foco levantar histórias oficiais e não oficiais a respeito da necrópole que se situa no bairro com o intuito de dar visibilidade à memoria da região. “Inaugurado em 1942 pelo então prefeito Juscelino Kubitschek, o cemitério ou “campo santo”, como era chamado na época, foi construído no intuito de ampliar os espaços para os mortos da cidade, que já não cabiam no Cemitério do Bonfim, primeira necrópole da capital”, comenta a historiadora.Segundo a pesquisadora, o cemitério da saudade foi projetado para ser um cemitério parque, propondo uma mudança radical em relação ao Bonfim, já que contava com arborização especial, flores e os seus túmulos tinham mais o aspecto de monumentos. “Com essa transformação, tira-se do cemitério da Saudade a ideia de fim, dando-lhe a aparência festiva dos parques, como nos Estados Unidos”, conclui Sophia.

“Inaugurado em 1942 pelo então prefeito Juscelino Kubitschek, o cemitério ou “campo santo”, como era chamado na época, foi construído no intuito de ampliar os espaços para os mortos da cidade, que já não cabiam no Cemitério do Bonfim, primeira necrópole da capital”

Uma outra curiosidade é que para enterrar os corpos, o prefeito determinou na época que a cidade fosse dividida em duas zonas, cada uma delas pertencendo a cada um dos cemitérios, o do Bonfim e o da Saudade. Assim aqueles que falecessem de um lado da linha seriam enterrados no Bonfim e os que falecessem do outro lado da linha teriam seu túmulo no cemitério da Saudade, com exceção das famílias que tinham o túmulo perpetuado no Bonfim, que deveriam ser enterradas nestes túmulos, independente da zona em que falecessem.

Imagem do pôr do sol no Cemitério da Saudade, segunda necrópole de Belo Horizonte

Para Sophia, Juscelino separaria os espaços da vida sob uma perspectiva da morte. “O interessante desse capítulo da história de Belo Horizonte é que o mapa da cidade é dividido a partir da lógica da morte, o que aproxima esse episódio a uma história de caráter quase fantástico, romanesco. Uma outra conclusão que podemos chegar está relacionada ao modo simples como a cidade se organizava, já que ainda tinha uma extensão bem menor da que tem hoje. Isto é, o número de mortos havia excedido a capacidade do Bonfim, então surge a ideia de se construir uma nova necrópole, só que a construção de um novo cemitério exige uma lógica, uma organização que determine em qual cemitério as pessoas deveriam ser enterradas. Para esse problema, nada mais nada menos do que a simples resolução a qual Juscelino havia chegado: traçamos uma linha dividindo a cidade, quem morrer de um lado deve ser enterrado no Bonfim, e quem morrer do outro vai para o Saudade.”

A pesquisa revela ainda que o cemitério da Saudade foi inaugurado com a morte de Domingas Antônia, mulher paupérrima que falece sem assistência médica, mas que é homenageada pelas autoridades, que batizam a alameda central da necrópole com seu nome. “Domingas Antônia é o nome dado à alameda central do cemitério em 1942.

Isto é, o número de mortos havia excedido a capacidade do Bonfim, então surge a ideia de se construir uma nova necrópole, só que a construção de um novo cemitério exige uma lógica, uma organização que determine em qual cemitério as pessoas deveriam ser enterradas.

Ironicamente, Domingas, mulher negra e pobre, residente na Vila Brasilina, morre aos 48 anos de idade desassistida pelas autoridades da cidade, pois lhe são negados cuidados médicos. Porém assim que as autoridades têm ciência do fato, dirigirem-se à casa da falecida e tomam todas as providências necessárias para o seu enterro”, afirma a pesquisadora. Essas e outras histórias devem compor a pesquisa de Sophia, que além de buscar informações nos órgãos públicos oficiais, pretende também fazer uma coletânea com as memórias e histórias contadas pelos moradores mais antigos do bairro Saudade a respeito do cemitério.